Ernest Hemingway, assim como eu e, talvez você, já foi babá.
Isso mesmo. Quando se tem um propósito, um sonho, uma convicção, é preciso aproveitar todas as oportunidades que surgem com o intuito de nos aproximar daquilo que queremos.
Em 1920, enquanto passava um tempo em Petoskey, Michigan, Ernest Hemingway foi convidado pelo clube feminino local para fazer uma palestra sobre suas experiências como soldado do exército italiano durante a Primeira Guerra Mundial, da qual ele havia retornado recentemente.
Harriet Gridley Connable, uma rica empresária torontoniana que passava as férias ali com o marido Ralph, ficou tão impressionada com o discurso do jovem Ernie que o convidou a passar algum tempo na mansão do casal em Toronto. Ela acreditava que a coragem que ele mostrou na recuperação de sua lesão na perna poderia ser incentivo e inspiração para o seu filho inválido, Ralph Jr. Então ela ofereceu a Ernest um trabalho como cuidador e mentor do rapaz enquanto ela e seu marido viajavam de férias para Palm Beach, na Flórida.
O tipo de trabalho não era lá o que Ernest tinha em mente, mas a proposta era tentadora porque o senhor Ralph, homem influente na cidade, mexeu os pauzinhos e conseguiu para ele um trabalho de freelancer para a revista Star Weekly. Assim, enquanto fazia companhia para Ralph Jr., ele teria tempo para escrever para a revista e também trabalhar nos seus próprios contos e poemas.
A razão pare ele aceitar esse tipo de trabalho não era outra senão, ter tempo para escrever. Um emprego formal não lhe permitiria dedicar à escrita a atenção que ele julgava necessária. Em Petoskey ele estava conseguindo fazer algo de bom e isso o animava. Ele tinha a convicção de que algum dia seria um bom escritor. Mas também sabia que isso poderia levar muito tempo. Estava vivendo ali praticamente às custas dos pais e isso não lhe agradava.
Mas se a desculpa era dinheiro, ele recebeu também uma oferta para fazer uma campanha publicitária para a Firestone Pneus e ficou bastante tentado a aceitar, pois eles lhe pagariam $ 50 por semana mais despesas, porém lhe custaria tempo integral e muitas viagens entre várias cidades.
Doutor Clarence não queria muito influenciar o filho, mas deixou evidente que ele gostaria que Ernest aceitasse o trabalho de propaganda, pois era algo garantido e mais à sua altura, o filho estaria ali por perto e não precisaria mudar para outro país.
Ernie estava animado com a perspectiva de escrever para a revista, mas não com o trabalho de cuidador de um jovem doente, o que lhe parecia algo entediante. Então ele resolveu seguir os conselhos do pai e escreveu ao Sr. Ralph falando de sua nova opção, mas mudou de ideia quando recebeu a resposta de sua carta.
O Sr. Connable acreditava que sendo ele, Ernest, adepto de quase todos os esportes poderia convencer seu filho a praticar atletismo e tirá-lo do marasmo em que vivia. Para isso, lhe ofereceu 50 dólares por mês além das despesas e lhe assegurou que ele poderia dedicar a maior parte de seu tempo ao trabalho literário.
Assim, ele partiu para Toronto no dia 8 de janeiro e lá permaneceu por quatro meses. Ali fez contato com alguns jornais e revistas diários como o Toronto World que circulou entre 1880 e 1921, o Toronto Globe um jornal semanal e o Toronto Star fundado em 1892 que era então o maior jornal da cidade e publicava a revista Star Weekly, para a qual ele já escrevia alguns artigos e contos.
Apesar de, na maior parte do tempo, ele ter negligenciado seus deveres como mentor de Ralph Jr. para se concentrar em escrever para a revista, ele se tornou amigo dos Connables.
Seus primeiros trabalhos ali tem pouca semelhança com a escrita enxuta que marcou a sua carreia literária, mas foi, sem dúvida, a alavanca que o arremeteu ao mundo no qual ele queria fazer história.
Literalmente.