O primeiro amor

Ernest Miller Hemingway era um romântico incorrigível. Na adolescência flertava com as meninas do colégio e com as amigas da irmã Marcelline. Por todas dizia estar “in love”. Supõe-se naturalmente que tudo não passava de paixões adolescentes, aquelas que se vão tão rápido quanto aparecem. Entre elas, o affair com a atriz do cinema mudo Mae Marsh (Mary Wayne Marsh 1895-1968) talvez tenha sido o primeiro sentimento mais forte que o escritor experimentou e que só não se intensificou por conta de sua partida para o velho mundo, para servir a Cruz Vermelha no Front italiano como motorista de ambulância. O romance não aparece em sua biografia e a própria atriz o negou, mas em cartas ele contou à irmã Marcelline sobre sua paixão e chegou a afirmar que ela o esperaria voltar da guerra.”Não se surpreenda se você ouvir falar de mim afundando em um casamento. Se puder vá vê-la em um filme e você me dará razão. E olha que ela não é nem a metade nos filmes do que é na vida real.  Minha única esperança de continuar solteiro é ir para a guerra. Esta é, provavelmente a melhor coisa a fazer. Mas ela disse que vai me esperar. Não sei o que ela viu de bom no bruto Steinway, mas espero que ela continue vendo. Torça por mim maninha!”

Mas lá na Itália, deitado em uma cama de hospital com a perna dilacerada e a alma em chamas, sem saber se sairia vivo daquele inferno, Ernest ouvia os sussurros dos médicos e enfermeiros. O desespero maior era que, por mais de uma vez, ele distinguiu a palavra amputação. Ele queria gritar, implorar, dizer que preferia morrer a ter sua perna amputada, mas estava sedado e não tinha forças sequer para gemer.
Uma enfermeira chegou bem perto dele, segurou com carinho a sua testa e sussurrou:
_Não se preocupe, não permitirei que eles mutilem você.
O médico responsável pelo caso a advertiu:
_Não sei se você poderá cumprir a sua promessa, o caso é grave e o risco de infecção é altíssimo.

Ferido gravemente pela artilharia austríaca, entre a vida e a morte, ele se apaixonou novamente. Não sabia ainda, mas aquela enfermeira encarregada de prepará-lo para a cirurgia no dia seguinte, marcaria sua vida para sempre.  Sensibilizada ela resolveu usar um medicamento experimental para limpar as feridas, quase em gangrena e tentar salvar a sua perna. Os olhos de Ernie eram puro desespero. Apesar de sedado, Agnes parecia ouvi-lo implorar para que não o mutilassem.

Então, durante toda a noite ela permaneceu ao lado dele e, sem descanso,  hidratou os ferimentos com o remédio a cada duas horas.

No dia seguinte, ao chegar para a cirurgia, o doutor ficou impressionado com a melhora dos ferimentos e decidiu poupar a perna do pacienteAgnes e Ernest.
A enorme gratidão pelo cuidado extremo da enfermeira Agnes, fez com que Ernest se aproximasse mais dela. Já a havia achado bonita fisicamente quando a conheceu. Agora conhecia a sua alma. E era tão bela quanto.

Enquanto se recuperava no hospital, ele e Agnes começaram um namoro tenso e apaixonante. O fato de ser oito anos mais velha que ele a incomodava muito. Ernest era um menino e ela já estava passando da idade de se casar. E não era justo atrelar a si um soldado tão jovem, com uma carreira tão promissora. Mas ele a convenceu. Voltou para os Estados Unidos com a promessa de espera-la terminar seu tempo de alistamento para então se casarem. Comunicavam-se por cartas quase que semanais e ele não via a hora de receber a sua amada e apresenta-la à família.

Porém, o tempo foi passando, as respostas às suas cartas foram se tornando cada vez mais escassas, até que ele recebeu aquele que seria o mais duro golpe herdado da guerra. “Estou escrevendo tarde da noite após pensar muito e tenho medo de machucá-lo, mas eu tenho certeza que isso não irá feri-lo de forma permanente. Por um tempo antes de você ir embora, eu estava tentando me convencer de que era um caso de amor real, mas nós sempre discordamos nesse ponto e depois eu buscava argumentos que se encaixavam para evitar que você tomasse alguma atitude desesperada. Agora, depois de dois meses longe de você, eu sei que eu gosto de você, mas é mais como uma mãe do que como uma namorada. É certo dizer que eu sou uma garota, mas também sou cada vez menos uma garota a cada dia que passa. Não espero que você entenda, mas quem sabe algum dia você poderá me perdoar e, talvez, até me agradecer. Eu sempre te amarei, mas agora eu sei que nosso amor era apenas uma paixão entre dois jovens solitários em tempos de guerra. Não me procure, pois na primavera, com certeza, já estarei casada. Espero que você tenha uma brilhante carreira de escritor, acredito muito na sua capacidade. Não me queira mal, eu sei que estou fazendo o melhor para você.”

Ernest ficou terrivelmente magoado com esse desfecho. O amor antes tão forte e real, agora era algo que ele não conseguia definir. Dor e ódio passaram a habitar seu coração   quando ele soube que Agnes se apaixonou por um oficial italiano.

Mas o romance não durou muito. O oficial não se casou com ela na primavera e nem em outro tempo qualquer. Ernest nunca respondeu àquela carta. Arrependida, Agnes voltou aos Estados Unidos e o procurou, mas ele cheio de ressentimentos, a rejeitou. Porém, sofreu muito com o fim inesperado do amor que julgava eterno. Estava juntando dinheiro para se casarem. “Sendo pobres juntos, teremos momentos maravilhosos”, ela lhe havia dito um dia. Mas não teve coragem de enfrentar a vida ao seu lado. “Eu estou arrasado. Meu Deus como eu a amava”, escreveu Ernie a um amigo. E seguiu sua vida.

Contudo, mesmo tendo se casado quatro vezes, jamais esqueceu aquele amor.

Ela nunca se casou.

The Letters of Ernest Hemingway – Volume I-1907-1922. Cambridge University Press, 2011

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