O herói

Ernest Hemingway foi condecorado com a medalha de prata durante a primeira guerra mundial e voltou para os Estados Unidos como herói. No entanto, ele não se via como tal e fazia de tudo para que esse ‘sucesso’ não lhe subisse à cabeça. Quando retornou da guerra escreveu ao amigo James Gamble: “Eles tentaram fazer de mim um herói aqui. Mas você sabe que todos os verdadeiros heróis estão mortos. Se eu tivesse sido realmente o cara do jogo, teria me matado. E eu sei disso, por isso não afeta o tamanho do crânio, eu espero.”

(As cartas de Hemingway, 1907-1922, pag. 169)

O primeiro amor

Ernest Miller Hemingway era um romântico incorrigível. Na adolescência flertava com as meninas do colégio e com as amigas da irmã Marcelline. Por todas dizia estar “in love”. Supõe-se naturalmente que tudo não passava de paixões adolescentes, aquelas que se vão tão rápido quanto aparecem. Entre elas, o affair com a atriz do cinema mudo Mae Marsh (Mary Wayne Marsh 1895-1968) talvez tenha sido o primeiro sentimento mais forte que o escritor experimentou e que só não se intensificou por conta de sua partida para o velho mundo, para servir a Cruz Vermelha no Front italiano como motorista de ambulância. O romance não aparece em sua biografia e a própria atriz o negou, mas em cartas ele contou à irmã Marcelline sobre sua paixão e chegou a afirmar que ela o esperaria voltar da guerra.”Não se surpreenda se você ouvir falar de mim afundando em um casamento. Se puder vá vê-la em um filme e você me dará razão. E olha que ela não é nem a metade nos filmes do que é na vida real.  Minha única esperança de continuar solteiro é ir para a guerra. Esta é, provavelmente a melhor coisa a fazer. Mas ela disse que vai me esperar. Não sei o que ela viu de bom no bruto Steinway, mas espero que ela continue vendo. Torça por mim maninha!”

Mas lá na Itália, deitado em uma cama de hospital com a perna dilacerada e a alma em chamas, sem saber se sairia vivo daquele inferno, Ernest ouvia os sussurros dos médicos e enfermeiros. O desespero maior era que, por mais de uma vez, ele distinguiu a palavra amputação. Ele queria gritar, implorar, dizer que preferia morrer a ter sua perna amputada, mas estava sedado e não tinha forças sequer para gemer.
Uma enfermeira chegou bem perto dele, segurou com carinho a sua testa e sussurrou:
_Não se preocupe, não permitirei que eles mutilem você.
O médico responsável pelo caso a advertiu:
_Não sei se você poderá cumprir a sua promessa, o caso é grave e o risco de infecção é altíssimo. Continuar lendo