Hemingway e Eu

Porque aprendi a amar Ernest Hemingway?

Em primeiro lugar por seu compromisso com a verdade de fato e por sua lealdade para consigo mesmo.

Claro que a primeira chama foi o conhecimento de sua obra, prima, bela, de qualidade inquestionável. Não pela ‘secura’, nem tanto pela concisão, muito menos pela ‘simplicidade’ que a crítica mundial a ele atribui.

Não. Não vejo dessa maneira. No meu parco entendimento literário sua escrita é extremamente rica, paradoxal, posto que é prenha de significados e representatividade daquilo que vivenciamos no dia a dia e não nos damos conta. E digo mais; aquilo que sentimos, pensamos, acreditamos, mas não temos coragem de admitir ou assumir. Mas ele tinha. Pagou caro por isso, acreditem. Trocar o ‘certo’ pelo duvidoso não é tão fácil para quem o faz, quanto parece para os que criticam e julgam.  Abrir mão da pinta de bom moço, bom filho, bom marido, bom pai e cidadão exemplar, é tão difícil quanto carregar  a alcunha de cafajeste, bêbado e inconsequente. A sinceridade e a lealdade normalmente estão atreladas a padrões de comportamento e princípios pré concebidos e, portanto vistas de fora – pelo outro -, vêm acompanhadas do terrível pré-julgamento que não se coloca no lugar do outro, nem tão pouco reflete sobre as possíveis razões que levam o sujeito a tomar essa ou aquela decisão.

Ernest Hemingway foi um homem fora de seu tempo, viveu a vida que quis, escolheu seus caminhos por sua própria conta e risco e desde muito cedo tinha a convicção de que, um homem tem o direito e o dever de  conduzir  o seu destino e, inclusive, determinar o seu fim. Sempre soube, portanto, que também para si, esse momento haveria de chegar. Talvez seja esse o único ponto de discórdia entre Hemingway e eu.

Bem, caro leitor, meu objetivo não é convence-lo de nada sobre ninguém nem sobre coisa alguma; o que eu quero é lhe contar usando nosso idioma, o que aprendi sobre esse grande escritor lendo sua obra, primeiro traduzida, depois – não convencida de alguns fatos -, no original em inglês, quando pude então aprender e apreender melhor seus pensamentos, suas convicções, seus dramas e conflitos e, sobretudo entender os motivos que o levou a sair pelo mundo, enfrentando guerras, lutas e grandes desafios.

Fatos são fatos, dirão alguns, mas eu digo: é a erupção do vulcão, a ponta do iceberg. A atividade tensa e intensa ou calma e vagarosa que se passa no âmago de uma pessoa, por vezes pensada e calculada e tantas outras vezes, repentinas e impulsivas e que culminam em fatos, quase sempre é imperceptível pela maioria dos que estão ao seu redor.

Não podemos julgar, antes, podemos nos colocar no lugar do outro e considerar todas as possibilidades.

E foi o que eu fiz.

Ernest morreu há 55 anos, mas desde que li pela primeira vez uma obra sua, e essa foi “O Velho e o Mar”, sinto com ele uma conexão que esteve adormecida durante pelo menos um quarto de século e que despertou de maneira intrigante, em sala de aula, ao ler o conto, cujo título me soa como poesia, “As Neves do Kilimanjaro”.

Contar essa experiência, mesclada com informações sobre a vida e a obra de Ernest Hemingway é meu objetivo nesse espaço.

Sobre Ernest Hemingway o Bruto, o Hemingstein, o Papa, o Nobel…

Organizado e disciplinado, Ernest Hemingway foi um dos mais expressivos escritores de sua época, formador do estilo simples e direto que influenciou (e ainda influencia) gerações de jovens autores mundo afora. Nasceu no dia 21 de julho de 1899, em Oak Park, um subúrbio de Chicago, o segundo de seis filhos do médico americano Clarence Hemingway e da mucisista Grace Hall Hemingway. Era um homem de porte alto e atlético, másculo e bonito, qualidades que, naturalmente lhe inflavam o ego, mas seu grande prazer, além das mulheres (casou-se quatro vezes – seus casamentos terminavam por infidelidade às esposas, mas fidelidade aos seus próprios sentimentos) eram as aventuras ao ar livre, sobretudo aquelas em que força e poder digladiavam até a morte sangrenta e inevitável; era um aficionado por pescarias de alto mar, safaris, touradas e lutas de boxe. Alguns críticos atribuem essas paixões a uma incessante curiosidade sobre a luta do ser humano para  compreender a própria existência e, também, sobre a morte, fruto talvez da desejo de entender as razões que levaram seu pai ao suicídio (a causa aparente seria a falência, durante a crise americana em 1929), cujo desfecho de vida seria ele próprio protagonista anos mais tarde.

Quando perguntado em uma entrevista para a Paris Review sobre o momento em que decidiu ser escritor Hemingway respondeu que sempre quis ser escritor. De fato, Hemingway parece ter nascido predestinado para a vida que levou. Quando ainda muito jovem se alistou no exercito americano com o firme propósito de servir na primeira grande guerra mundial, no entanto foi preterido porque tinha um defeito congênito em um dos olhos. Decidido, apresentou-se como voluntário e foi selecionado pela Cruz Vermelha para ser motorista de ambulância e, no auge dos seus dezoito anos de idade, embarcou para Europa e foi trabalhar no front italiano onde foi ferido gravemente no joelho por uma granada austríaca. No Hospital em Milão apaixonou-se pela enfermeira Agnes Von Kurowsky, que não quis levar adiante o relacionamento por ser seis anos mais velha do que ele. Talvez não por acaso, Hemingway casou-se dois anos depois com Hadler Richardson, sete anos mais velha e com ela foi morar em Paris onde conheceu e ficou amigo de vários escritores como Gertrude Stein, Ezra Pound, James Joyce, Scott Fitzgerald e outros, todos hoje cânones da literatura mundial. Foi nessa época que Gertrude Stein cunhou, sem querer, o termo “geração perdida” ao dizer para Hemingway que ele e os seus amigos escritores expatriados em Paris, eram uma geração perdida; uma rapaziada que serviu na guerra, que não tinham respeito por coisa alguma e bebiam até morrer.

Os anos em Paris foram talvez os mais tranquilos para Hemingway que ao longo de sua existência esteve sempre em busca de desafios, parecendo querer estar sempre no limite entra a vida e a morte como se esse espaço fosse o único capaz de sacudi-lo o suficiente para se sentir parte de algo maior do que a simples existência humana.

A guerra ele procurava. Esteve na guerra entre gregos e turcos em 1922, na Guerra Civil espanhola entre 1937 e 1939 e, em 1942, numa atitude um pouco utópica, mas com o aval do governo americano equipou o Pilar, seu barco de pesca, para “caçar” embarcações alemãs no Caribe cubano. Em 1944, na Normandia, documentou o desembarque de uma embarcação no dia D e depois matou um soldado nazista quando cobria a luta na fronteira entre a Bélgica e a Alemanha. Além disso, quando Paris foi libertada lá estava Hemingway e foi também lá que ele conheceu a quarta esposa Mary.

Hemingway procurou registrar em sua obra tudo o que viveu mesclando elementos da vida real com outros de sua imaginação e compôs uma obra literária, como ele próprio fazia questão de declarar, baseada em verdades, suas verdades, ainda que muitos vissem nelas a projeção de um homem verdadeiro sim, mas perturbado pelo conflito entre viver a vida conforme suas próprias convicções ou sucumbir às exigências de um sistema cuja violação das regras poderia lhe custar a tristeza de ver expostos aqueles a quem amava. Fragmentos de seus manuscritos que deram origem ao livro A Moveable feast mostram essa sua preocupação, bem como o cuidado com os itens legais. Para escrever a introdução, por exemplo, Hemingway escreveu mais de dez fragmentos; em quase todos deixa explícito uma grande preocupação sobre como sua primeira esposa Hadley – a protagonista – receberia a obra e entenderia seus propósitos ficcionais ou não. Além disso, preocupava-se também com outras personagens, pois segundo ele, mesmo após sua morte era possível que algumas das pessoas reais nas quais a obra foi baseada poderiam não entender porque foram (ou não) incluídas e se sentir no direito de processá-lo mesmo que quase quarenta anos haviam se passado e ele publicasse o livro como ficção.

Ernest viveu intensamente, mas aos cinquenta anos, quando a maioria dos escritores está se firmando, sua carreira parecia acabada. Ele havia lançado o romance Do outro lado do rio entra as árvores, que não foi bem recebido pela crítica; talvez pelo fato dele estar vivendo um romance pouco saudável com uma mulher muito mais jovem, os críticos interpretaram a narrativa como manifestação de sua andropausa – a história de um coronel americano, cinquentão, doente e aposentado que se muda para a cidade de Veneza, na Itália e vive seus últimos dias ao lado de uma  condessa de dezoito anos de idade, comendo, bebendo e caçando patos.

No entanto, em 1952, Hemingway escreveu O velho e o mar, que o reabilitou ganhando com esse novo romance o Prêmio Pulitzer e o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra, além de um novo fôlego para continuar escrevendo ficção de qualidade, algumas delas publicadas depois de sua morte.

Infelizmente, no final dos anos cinquenta, Hemingway ficou muito doente; teve cirrose agravada pelo uso constante do álcool, era hipertenso e, depressivo e paranoico, precisou ser internado em uma clínica psiquiátrica. O tratamento com eletrochoques prejudicou muito a sua memória: “This book contains material from the remises of my memory and of my heart. Even if the one has been tampered with and the other does not exist”. 

Assim, vencido pelas doenças adquiridas pelo uso desregrado do álcool e pela consequente depressão, que invariavelmente acometem aqueles que não conseguem mais controlar a própria vida, Ernest Hemingway aos dois dias do mês de junho de 1961, colocou na boca os dois canos de sua espingarda e pôs fim ao seu martírio deixando por acabar o seu último trabalho e inúmeros manuscritos que mais tarde foram compilados e publicados em forma de livros.

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